Um pesadelo chamado BULLYING

Devido a dificuldade de tradução para diversas línguas, o termo bullying foi associado ao verbo bully, de origem inglesa, que significa “usar a superioridade física para intimidar alguém”. Mesmo sem uma tradução literal para o português, ele é entendido como tirania, ameaça, humilhação, maltrato, opressão e intimidação. Se utilizado como adjetivo, pode ser traduzido como valentão ou tirano. Em alguns países, como na Noruega e Dinamarca, é conhecido como mobbing, que significa tumultuar; na Suécia e Finlândia, emprega‑se mobbning. Na Itália, foi conceituado como prepotenza e na Espanha, intimidación.

O fenômeno bullying se refere a agressões intencionais e sem motivação evidente realizadas por um ou mais indivíduos contra outro(s). Tais agressões causam dor e angústia e são executadas dentro de uma relação desigual de poder. Elas são feitas de maneira sistemática e repetitiva, e podem ocorrer em qualquer contexto social, como famílias, vizinhança, locais de trabalho, universidades e, na maioria das vezes, nas escolas, que é o foco desse artigo.

O bullying está presente em todos os níveis de escolaridade; não se restringe a uma faixa etária, podendo ocorrer a partir dos 3 anos de idade, conforme apontam pesquisas recentes. Também não se restringe a determinado nível sócio-econômico ou gênero, apesar de ter maior incidência entre os meninos, tanto no papel de agressores como no de vítimas.

Entre eles, é mais comum que haja agressões físicas, ameaças, roubos e ofensas verbais. Já entre as meninas, a vitimização acontece de forma mais velada, envolvendo atitudes como indiferença, isolamento, exclusão, difamação. O bullying pode manifestar-se de diferentes formas: física (chutes, tapas, empurrões); verbal (gozações, apelidos) ou relacional (ameaças, acusações injustas, roubos).

Normalmente existem três tipos de pessoas envolvidas nessa situação de violência: o espectador, a vítima e o agressor. O espectador é aquele que presencia os maus-tratos e o sofrimento da vítima de forma passiva. Ele assiste a dinâmica da violência sem interferir: não acolhe a vítima, mas também não denuncia os agressores. Por medo de se tornar a próxima vítima ou sofrer algum tipo de represália, não revela os acontecimentos, o que lhe gera muito incômodo com a situação e com a incapacidade de agir. O espectador é personagem fundamental no bullying por duas razões: embora ele não se junte aos autores, ele tende a se afastar da vítima, contribuindo com o processo de exclusão; além disso, à medida que adota a lei do silêncio, torna-se responsável pela continuidade do conflito.

No entanto, apesar de pouco comentado, também existe o espectador agressor. Esse tipo de espectador atua como uma platéia ativa, reforçando a agressão com risadas ou palavras de incentivo. Ele retransmite imagens ou fofocas e se for pela Internet, por exemplo, ele repassa a informação, tornando-se, com isso, co-autor da situação.

A vítima encontra-se, na maioria das vezes, em uma posição fragilizada em relação ao agressor, e dificilmente pode se defender, devido a diferenças emocionais, sociais ou físicas (estatura, peso, raça, etc.). Ela está mais propensa a apresentar problemas como depressão, isolamento, ansiedade social, além de pensamentos e comportamentos suicidas.

Geralmente, a vítima é passiva, insegura, isolada, introvertida, tímida e com baixa auto-estima. Tem dificuldade de se impor e costuma se relacionar melhor com adultos do que com pessoas de sua idade.

Entretanto, também existe a vítima provocadora e a vítima agressora. A vítima provocadora é inquieta, agitada, ansiosa, dispersiva e agressiva. Pelo seu jeito de ser e de naturalmente se comportar, ela irrita as pessoas do grupo sem perceber, briga quando é atacada, mas depois não consegue resolver a situação que ela mesma criou. A vítima agressora é aquela que transfere todo seu sofrimento para outro, reproduzindo as agressões sofridas em alguém mais frágil, que muitas vezes pode ser o irmão caçula, por exemplo. Dessa forma, contribui para o aumento no número de vítimas.

De qualquer forma, assim como acontece com o espectador, tanto a vítima típica como a provocadora ou a agressora, elas temem denunciar os seus agressores. Com medo de sofrer represálias ou com vergonha de admitir que estão passando por situações humilhantes ou, ainda, por acreditar que não receberá o devido crédito, a vítima sofre calada, acentuando a dificuldade de reconhecimento da violência que está acontecendo.

O agressor (ou bully) geralmente é autoritário, controlador, intolerante e hostil. Tem dificuldade em aceitar normas, é popular, dominador e hábil em manipular, pois consegue perceber as vulnerabilidades de suas vítimas, forçando-as ao isolamento social. Geralmente possui elevado status social dentro do grupo e é grande a chance de no futuro se envolver em condutas anti-sociais como roubo, vandalismo e consumo de bebida alcoólica.

Por outro lado, é importante ressaltar que o agressor ocupa uma posição muito dinâmica e vulnerável no grupo, pois seus colegas podem cansar de se sentirem dominados e manipulados. Por isso, com o passar do tempo, o agressor pode passar a ser rejeitado e ter suas relações interpessoais prejudicadas, tornando-se então uma vítima de todo esse processo.

A dinâmica envolvida no bullying é tão complexa, que a atuação da escola é de fundamental importância. No Reino Unido, todas as escolas são obrigadas a ter um plano antibullying. No Canadá e EUA as escolas podem ser responsabilizadas por omissão. Na Noruega, existe um programa para todas as escolas que prevê a adoção de regras claras, a constituição de comissões antibullying, a capacitação de docentes para a intervenção, a realização de encontros com estudantes e pais de envolvidos, além de aplicação de medidas de apoio às vítimas. Em Portugal, o bullying foi incluído no programa de educação para a Saúde e deve integrar o projeto educativo das escolas. E no Brasil, de acordo com leis já vigentes, as escolas devem instituir programas preventivos que visem reduzir o problema e incentivar a cultura de paz.

A família dos envolvidos, no entanto, não podem transferir a responsabilidade única e exclusivamente para a escola ou para o Estado. Os pais precisam ficar atentos e se responsabilizar pela educação de seus filhos, sejam eles a vítima, o espectador ou o agressor.

No caso das vítimas, os pais precisam considerar alguns sinais como: queda de rendimento escolar, rejeição à escola, desejo de mudança de sala de aula, sintomas de somatização (diarréia, vômitos, dores abdominais, asma, insônia ou pesadelos), problemas emocionais (depressão) e isolamento ou falta de vontade de participar de atividades em grupo.

Diante de uma situação dessas, cabe aos pais conversarem com a direção da escola, informando o que está acontecendo e solicitando que sejam tomadas as medidas necessárias. Em casa, é importante conversar sobre o que está acontecendo na escola e perguntar na medida do possível como o filho está se sentindo. Também é imprescindível apoiar o filho e tentar melhorar a sua auto-estima, mostrando-lhe o quanto ele é amado e querido, e que a culpa não é dele.

Alguns pais incentivam o filho a enfrentar o agressor, mas essa pode não ser a melhor solução se o filho estiver fragilizado, pois ele corre o risco de sofrer uma frustração maior ainda. No entanto, estimular a continuidade do silêncio e da submissão também pode significar a autorização da manutenção da prática da violência. A orientação de um especialista pode ajudar na identificação da melhor conduta para cada caso.

No caso dos agressores (ou bullies), é fundamental que os pais entendam que algumas atitudes dos filhos em casa podem denunciar um comportamento inadequado na escola (e na vida, com o passar do tempo): apresentação de atitudes hostis, desafiantes e agressivas; imposição da sua autoridade sobre alguém; aparecimento de objetos ou dinheiro sem conhecimento da sua origem; brincadeiras de modo agressivo; ameaças; imposição de ordens; dominação; manipulação; forma de tratamento com os empregados; tipo de relacionamento com o irmão; maneira de cuidar de seus pertences; reação às regras; demonstração de afetos... Os pais não devem negar a situação. Por mais desagradável e frustrante que seja, aceitar os fatos e lidar com a realidade é a melhor saída nesse momento. Os pais do agressor devem convidá-lo para uma conversa franca, mostrando-lhe seu descontentamento, sua reprovação e sua preocupação com a gravidade da questão, conscientizando-o da necessidade de uma mudança de comportamento. Questionar os detalhes dos acontecimentos, esclarecendo todas as dúvidas até que tudo faça sentido também é muito importante para que o agressor não se sinta mais fortalecido ainda ao perceber que além de manipular e dominar as pessoas na escola, também é capaz de fazer o mesmo em casa.

Por isso, os pais não podem aceitar que os filhos usem argumentos que justifiquem suas agressões com a vítima, como: “Foi só uma brincadeirinha”. É aconselhável que o agressor sofra punições, de preferência associadas a valores como fraternidade, compaixão e respeito. E se esses valores forem exercitados no dia-a-dia dessa família, através da aceitação e valorização das diferenças, da empatia, das trocas afetivas, da possibilidade de aprender com o outro, das condutas de reparação e de atos solidários, a convivência pacífica dentro ou fora de casa torna-se mais possível e real.

O bullying precisa ser contido e isso só vai acontecer quando as vítimas perceberem que serão protegidas e os agressores entenderem que não ficarão impunes, seja na escola, em casa ou em qualquer outro ambiente.

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