Os desafios da psicoterapia infantil

Tenho um paciente de 9 anos que aqui chamarei de Maurício. Maurício estuda em uma escola particular na zona sul de São Paulo em período integral e começou a terapia porque não se comporta adequadamente na escola, é agressivo com os colegas e tem dificuldade de aceitar regras.

Mauricio também faz acompanhamento psiquiátrico: no início recebeu o diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (o tão conhecido TDAH) e hoje é considerado portador do Transtorno Desafiador Opositivo. Quase diariamente, Maurício sofre punições na escola, pois não respeita a professora, se recusa a fazer as atividades propostas e ainda arruma briga com os colegas. Mesmo assim, sempre se refere ao ambiente escolar com carinho e como um lugar agradável, onde se sente bem e protegido.

Nos nossos encontros, desde o inicio se mostrou motivado a participar das atividades que eu propunha, embora houve uma fase em que jogar (e ser o vencedor) era a sua primeira opção.

Na minha sala tenho uma estante cheia de jogos, que geralmente as crianças ficam admirando e apontando: “Esse jogo eu tenho...”, “Esse eu já joguei na casa do meu amigo...”, “Esse eu não conheço...”. Maurício também agia dessa forma, mas sempre acabava escolhendo o mesmo jogo pra usarmos durante a sessão. Era um jogo que ele já conhecia e costumava jogar com um amigo na escola, então ele sabia algumas estratégias que sempre o ajudavam a ser o vencedor.

Com o passar do tempo, esse jogo foi substituído por outro, depois por outro, até que “jogar” foi perdendo a graça. A essa altura, Mauricio já não roubava mais durante o jogo e reagia de forma adequada quando era derrotado em alguma partida.

Com o nosso vínculo bastante fortalecido, Mauricio foi se sentindo cada vez mais à vontade para se abrir comigo. Primeiro resolveu me contar que convivia com uma raiva incontrolável dentro de si. Mais tarde, me contou também que estava muito preocupado com um segredo que pactuava com sua mãe e, ao mesmo tempo, escondia de seu pai. Mauricio acreditava que se esse assunto fosse abordado com sua mãe, já que dizia respeito a sua vida pessoal, ela ficaria tão brava e chateada, que o colocaria de castigo e não o perdoaria jamais.

como Mauricio me contou tudo isso?

Mauricio me contou tudo isso através de lindos desenhos e criativas histórias. Como o desenho é um dos principais meios de comunicação das crianças, foi através desse recurso que pude me aproximar das fantasias, dos medos e da raiva do meu pequeno e tão querido paciente.

Mauricio começava a desenhar um carro, mas no final esse carro se transformava num tanque de guerra; um peixe se transformava numa baleia assassina; um cachorro se transformava num dragão que cuspia fogo..., e assim vários desenhos que inicialmente seriam inofensivos acabavam ganhando forte poder de destruição. Dessa forma percebi que Mauricio estava me contando que queria muito conseguir se controlar, mas infelizmente dentro dele havia uma raiva tão grande que acabava o dominando e o levando a apresentar comportamentos hostis e agressivos. No fundo, Mauricio estava me perguntando: O que devo fazer com toda essa raiva que existe dentro de mim?

E como se fosse mais um capítulo de seu livro da vida, nas sessões seguintes, Mauricio começou a desenhar um grande baú de tesouros que estava escondido no fundo do mar e que para encontrá-lo, os piratas tinham que viajar muito e passar por um tubarão que só poderia ser morto com um tiro de canhão. Quando Mauricio terminou de fazer esse desenho e de me contar sua história, perguntei pra ele se por acaso esse baú que estava tão bem escondido no fundo do mar não poderia ser igual a algum segredo que às vezes temos guardado dentro da gente e não deixamos ninguém chegar perto. Na mesma hora, Mauricio abriu um sorriso indescritível e depois de um suspiro provavelmente “de alivio”, me disse: “Você é a única pessoa que conhece o meu segredo. Como posso me livrar dele?”

Considerando todo o contexto de vida do Mauricio, foi fácil entender o que ele estava me pedindo. Depois desse momento, nós dois juntos começamos a desvendar esse segredo. Convidamos sua mãe para uma sessão, seu pai para outra e assim, o pequeno Mauricio foi se libertando de um peso que o aprisionava e o transformava numa criança tão agressiva e destrutiva...

Assim como fez Maurício, é comum que as crianças não verbalizem seus conflitos nem contem uma história através da fala. Afinal de contas, nem sempre elas sabem explicar o que sentem. No entanto, elas são extremamente hábeis em demonstrar seus medos e fantasias através de histórias, desenhos, jogos ou brincadeiras. Esses recursos funcionam como um meio de expressão e facilitam as projeções do mundo interno infantil.

Por isso, o fascinante desafio de atender crianças em psicoterapia está justamente na possibilidade de “entender” um desenho, “traduzir”uma história, “ler” uma brincadeira ou um jogo...

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