O mimo e o mito dos filhos únicos

Há algumas décadas, ser filho único era característica de uma minoria. Atualmente, no entanto, acompanhando as mudanças sociais e econômicas, a arvore genealógica brasileira está mais compacta: as famílias estão cada vez menores e, com isso, a quantidade de filhos únicos, cada vez maior. Calcula-se que hoje entre 20 e 30% dos casais tem apenas um filho.

O filho único que antes recebia o estigma de mimado, superprotegido e egoísta, como se esse fosse o fator determinante de sua personalidade e comportamento, hoje é visto como uma pessoa que age de acordo com a educação que recebeu e as experiências que viveu.

Dessa forma, o mito do filho único “reizinho” desapareceu, principalmente porque cada vez mais os pais prezam por seus interesses pessoais, deixando seus filhos sem aquela exclusividade que antes podia ser prejudicial para o seu desenvolvimento. Atualmente, o filho único não precisa dividir a atenção de seus pais com irmãos. Em contrapartida, precisa disputar essa atenção com as diversas prioridades da vida moderna.

Outra mudança que também ocorreu é que antes não existia a preocupação de se buscar em livros, a instrução e orientação necessárias para a melhor forma de se educar os filhos. Esses ensinamentos eram passados de mãe para filha, de geração em geração, e da forma mais simplista possível. Hoje esse cenário está modificado. A maioria dos pais está mais atenta e preocupada com o futuro de seus filhos. E, para isso, existe uma vasta literatura a respeito, inclusive programas de televisão ensinando a melhor forma de educar uma criança.

Uma recente pesquisa americana revelou que filhos únicos têm melhor desempenho escolar e se tornam adultos mais bem sucedidos do que as crianças criadas em famílias grandes. Essa conclusão foi atribuída aos pais, que preocupados com o mundo competitivo que seus filhos enfrentarão, oferecem para eles um currículo extenso e abrangente para o aprendizado da vida.

De qualquer maneira, a questão não é ser filho único ou não. A questão é se os pais transformam seu filho em um verdadeiro ditador ou o ensinam a lidar com a vida. Existem famílias, por exemplo, com dois ou mais filhos que são mimados e egocêntricos, mesmo não sendo filhos únicos.

O filho único pode ter um desenvolvimento tão saudável como o filho com muitos irmãos. Alguns problemas, como a dependência dos pais, a superproteção ou a introversão, não são apenas características dos filhos únicos. Deve-se, na maioria das vezes à maneira como essas crianças foram educadas.

Um bom exemplo disso é a “Síndrome do Filho Único”, que apesar do nome, não existe única e exclusivamente nas famílias que tem apenas um filho. Essa síndrome também pode aparecer nas famílias com dois ou mais filhos, pois o que a caracteriza não é o tamanho da prole, mas sim a forma de educação. Ela é caracterizada pelo excesso de cuidado, proteção e exclusividade que o filho recebe. À medida que ele cresce e começa a viver experiências em outros ambientes (e não apenas no familiar), ele se depara com dois mundos muito diferentes: em casa, onde ele nem precisa piscar e já tem tudo o que deseja a seus pés; e fora de casa (na escola,no playground ou no trabalho, por exemplo), onde é visto apenas como mais um ser humano em meio a tantos outros. Essa dicotomia lhe causa uma crise de identidade angustiante. Ele tem, então, duas escolhas pela frente: aceitar o fato de não ser mais aquela criança (ou adulto) tratada de maneira tão especial ou lutar para manter seu reinado mesmo fora de casa. Portanto, os pais que não desejam esse sofrimento para seus filhos, devem tratá-lo com carinho, mas ao mesmo tempo com limites e naturalidade.

Diante desse cenário, para uma boa educação dos filhos, principalmente no caso dos filhos que não possuem irmãos, mas não excluindo aqueles que têm, alguns aspectos são fundamentais. Os pais correm o risco de valorizarem o papel de pai e mãe, desprezando o papel de marido e mulher, o que pode trazer conseqüências negativas não só para a educação do filho, como também para a própria relação conjugal. O filho precisa saber que, antes de serem seus pais, eles são marido e mulher que formam um par do qual ele é o terceiro, ou melhor, ele é excluído. Assim, o filho aprende a respeitar os desejos e as necessidades alheias, acostumando-se a tolerar frustrações e entendendo que certas decisões são tomadas pelos adultos e sem a sua participação; também aprende a se entreter sozinho, tornando-se capaz de ser independente ao longo da vida e de estabelecer trocas afetivas com outras pessoas (amigos, primos, vizinhos), e não somente com os pais. A entrada mais precoce na pré-escola, onde essa criança aprenderá desde cedo a conviver com outras crianças, dividindo seus brinquedos, se impondo e também cedendo, pode ser uma forma importante de facilitar o processo de socialização. A prática de um esporte coletivo também é bem-vinda, pois colabora para uma vivência grupal. E, finalmente, o excesso de atençao para um filho (único ou não) deve ser seriamente monitorada, pois contribui para a formação de um ser humano presunçoso e arrogante, longe de qualquer possibilidade de modéstia ou humildade. Alem disso, o excesso de atenção pode fazer o filho sentir-se sufocado, responsável por muitas expectativas dos pais que podem ser vividas como pressão e fonte de ansiedade.

É inegável, portanto, que pais de filhos únicos enfrentam algumas situações de criação que outros pais não enfrentam. Porém, em ambos os casos, existem muitas semelhanças quando observada a complexidade da educação e da formação de um ser humano.

É importante que os pais (de um ou mais filhos) cultivem experiências de solidariedade, respeito e compaixão, contribuindo para a formação de seres humanos dignos e responsáveis por suas ações.

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