Convivendo com adolescentes

Alguns dizem que a adolescência é uma fase crítica, um período de muita turbulência. Outros acreditam que é simplesmente mais uma etapa na vida de todos nós, assim como tantas outras pelas quais passamos.

Conviver com adolescentes pode ser um grande desafio ou algo agradável e prazeroso. Tudo vai depender de como essa relação foi construída, das pessoas envolvidas e dos laços afetivos que se estabeleceram ao longo dos anos.

Ao mesmo tempo em que o adolescente precisa se sentir pertencendo a um grupo, ele também vive em uma incessante busca de si mesmo. As flutuações de humor e do seu estado de ânimo são constantes no seu dia a dia.

É possível, por exemplo, que o mesmo adolescente que ontem deu um “boa noite” com um beijo tão gostoso e espontâneo, hoje vá dormir e nem se lembre de dizer “até amanhã”. Ou então, que o mesmo adolescente que chegou da balada na semana passada cheio de novidades para contar, nesse final de semana resolva chegar com a boca mais fechada do mundo: daquelas que não entra um mosquito sequer!

E por que será que em algumas famílias é tão difícil lidar com tudo isso? O que será que essa oscilação no comportamento do adolescente provoca em seus familiares?

Levanto essa questão, pois tenho me deparado com um número significativo de queixas desse tipo na minha experiência clínica. Muitos adolescentes reclamam da falta de privacidade, da falta de direitos, se sentem mal compreendidos e pressionados; e os pais, por sua vez, se sentem desprezados e desrespeitados, confusos quanto ao que deve ser permitido ou proibido.

As queixas dos pais e as queixas dos adolescentes são muito parecidas, ou melhor, complementares!

Enquanto alguns adolescentes lutam por autonomia, seus pais lutam por autoridade.

Enquanto alguns adolescentes lutam por privacidade, seus pais lutam por intimidade.

Em uma família onde essa for a dinâmica, o choque será inevitável e a qualidade das relações será totalmente prejudicada.

O ciclo de vida familiar envolve a noção de que ao longo do tempo, a família atravessa uma série de estágios presumidos, separados por transições que são previsíveis. Na fase adolescente do sistema familiar, tanto os papéis dos pais como dos filhos sofrem mudanças. Por isso, nesse momento as famílias precisam se ajustar, encontrando fronteiras qualitativamente diferentes das famílias com filhos mais jovens. Os pais passam a ter mais dificuldade para impor uma autoridade completa sobre seus filhos, o que certamente exige a busca de um novo jeito para que os limites sejam respeitados. Se os pais forem demasiadamente autoritários, poderão causar um distanciamento na relação com o filho; se forem muito permissivos, estarão aceitando atitudes com as quais não concordam e correndo o risco de descontarem a frustração em momentos inoportunos ou de forma inadequada. Portanto, os pais mediadores, na medida em que colocam limites e explicam seus motivos, garantem maior aproximação com o filho e não deixam de agir de acordo com seus princípios e ética.

Já que o filho adolescente não deve mais ser tratado como criança e, ao mesmo tempo, não tem a maturidade necessária para uma vida adulta, os pais que forem capazes de compreender que os interesses do seu filho mudaram, conseguirão manter uma relação de colaboração, respeito e confiança, tornando inexistente a probabilidade de aparecimento da famosa rebeldia, tão característica dessa fase para alguns, mas não para todos os adolescentes.

É esperado, por exemplo, que o adolescente tenha seus “momentos de porta fechada no quarto”. Isso não é em vão e tem, inclusive, uma função. Esse isolamento com o restante da casa pode ser necessário para um maior contato do adolescente consigo mesmo, pode ser sinônimo de pura reflexão e de autoconhecimento. Muitas vezes, essa é a forma que alguns adolescentes encontram para ponderar sobre prós e contras, para fazer planos, sonhar, colocar as idéias em ordem.

Além disso, é importante que o adolescente se sinta respeitado para também poder respeitar. É como se fosse um círculo vicioso: eu te respeito, você me respeita, e assim vamos nos respeitando...

Por isso, bater na porta do quarto do filho é sempre uma boa forma de demonstrar que o seu espaço está sendo respeitado.

Se na primeira tentativa, o pai ouvir um “entre”, ótimo sinal!

Se ouvir um “volte mais tarde”, sinal de que essa não foi uma boa hora.

Mas se essa boa hora nunca chegar, aí sim pode ser sinal de que alguma coisa não vai bem...

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