A complexidade do TDAH

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) tem como caracteristicas básicas a desatenção, a impulsividade e a hiperatividade. As pessoas com TDAH costumam ser agitadas, inquietas, impulsivas, falam muito, perdem objetos com grande freqüência, tem dificuldades de manter a atenção em atividades muito longas ou que não lhes interessam, se distraem facilmente com pensamentos próprios ou com estímulos do ambiente externo, tem dificuldades em se organizar e planejar o que precisam fazer.

Existem três subtipos de TDAH: predominantemente desatento, predominantemente hiperativo e o tipo combinado (desatento-hiperativo). O diagnóstico não se baseia apenas na presença dos sintomas, mas em sua intensidade, gravidade, duração e no quanto interferem na vida cotidiana da pessoa.

Confrontos, castigos, esquecimentos, perdas de objetos, críticas, agressividade, desorganização, instabilidade emocional, ansiedade, falta de planejamento adequado, agitação, relações interpessoais instáveis e tumultuadas, baixo desempenho acadêmico e profissional: a combinação desses sintomas acarreta prejuízos no funcionamento familiar e social do portador de TDAH.

No caso de crianças, eles interferem direta ou indiretamente nos diferentes ambientes que elas freqüentam, seja na escola, no clube ou na família. É natural, por exemplo, que o estresse e a tensão tomem conta do ambiente familiar e das suas relações, que ficam significativamente prejudicadas e mais desarmônicas.

Os pais culpam um ao outro pelo mau comportamento do filho, o que pode gerar muitas brigas e confrontos, inclusive um distanciamento do casal.

Em algumas famílias em que há mais de um filho, os pais acabam “protegendo” o portador de TDAH e sendo mais permissivos com ele no intuito de evitar maiores complicações. Esperam que o outro filho seja mais complacente e tolerante com o irmão. Dessa forma, esse filho se sente injustiçado e se queixa de receber um tratamento desigual por parte dos pais.

No extremo oposto, em outros casos, os pais apontam o filho portador de TDAH como o eterno culpado de qualquer ocorrência negativa, inocentando o outro filho, que às vezes pode se beneficiar, pois percebe que sua impunidade está garantida.

Com isso, fica fácil imaginar as conseqüências diretas e indiretas que atingem os sistemas familiares que vivem rotineiramente situações desse tipo. Surge uma rede de intrigas, desentendimentos e descontentamentos, que contamina todos os membros da família e torna a solução dos problemas cada vez mais distante.

Há pouco tempo atendi o Gabriel (nome fictício), 12 anos de idade, estudante num colégio particular na zona sul de São Paulo. O objetivo inicial do meu trabalho com G era ajudá-lo a controlar sua atenção e melhorar seu comportamento em sala de aula.

No início, as sessões eram individuais e estavam focadas no pedido explícito que os pais haviam feito. Depois de um mês de tratamento, porém, fiz a primeira sessão com a família de G. Estavam presentes os pais, o irmão caçula e o próprio paciente. Com esse encontro, percebi que o funcionamento da casa e a dinâmica da família contribuíam significativamente para a manutenção dos sintomas apresentados por G.

Durante a sessão, os pais falavam alto, interrompiam um ao outro e não escutavam o que era dito. Enquanto G brigava com o irmão, os pais já não sabiam mais como reagir, então resolveram fazer de conta que não estavam ali, no intuito de ver até onde chegaria aquela briga. Além disso, no final da sessão, comentaram que não conseguiam ver nada de positivo em G: era muito bagunceiro, tirava notas ruins, sempre esquecia as coisas na escola, enfim, tinham uma lista infinita de queixas para me contar.

A partir desse encontro, passei a atender G juntamente com seus pais e seu irmão em sessões familiares. Não foi um trabalho fácil, mas o resultado foi muito gratificante. Aos poucos, os pais conseguiram perceber que G não se resumia a um pacote gigante de defeitos e problemas. A comunicação entre eles ficou melhor: todos falavam mais devagar para poder ouvir e ser ouvido e num tom mais agradável aos ouvidos (nada de berros ou gritos). Além disso, quando G e o irmão começavam a brigar, imediatamente os pais se posicionavam e faziam uso de sua autoridade.

Estabelecemos juntos algumas regras de conduta e de convivência, como por exemplo: horário para dormir, para tomar banho e fazer a lição de casa, lugar para fazer as refeições, lugar para fazer a lição de casa; falar em tom de voz baixo e em ritmo brando; manter não somente o quarto em ordem, mas a casa também; evitar palavrões e xingamentos; só começar a falar depois que a outra pessoa já tivesse terminado o que queria dizer...

O importante dessas regras é que elas faziam sentido para toda a família e não somente para G. Elas eram necessárias para que a família encontrasse um novo jeito de se comunicar e de funcionar. G deixou de ser o único problema em evidência e todos passaram a se sentir importantes no processo de melhora de G e, ao mesmo tempo, responsáveis por um funcionamento mais saudável da família como um todo.

As sessões familiares no tratamento de crianças com TDAH pode ser de grande utilidade, pois o envolvimento dos pais e dos irmãos é sentido como uma demonstração de suporte e apoio ao paciente com TDAH, o que lhe é pouco comum no dia a dia. Ele deixa de se sentir o foco de todos os problemas e com isso, além de ter sua auto-estima renovada e fortalecida, as dificuldades de relacionamentos tendem a ser minimizadas. Além disso, quanto mais integrados estiverem todos os membros, maiores serão os laços familiares e melhor será o funcionamento da família.

No entanto, por ser um distúrbio neurobiológico, o TDAH não é temporário nem passageiro. Por isso, é preciso mencionar também os adultos portadores deste distúrbio.

Para eles, além das dificuldades encontradas na vida profissional, ter um relacionamento estável torna-se um desafio, pois a emoção é vivida intensamente, enquanto a razão é quase inexistente. A comunicação do TDAH tende a ser feita com colocações ofensivas e a memória comprometida invariavelmente causa esquecimentos de datas e compromissos importantes. Além disso, a dificuldade de ouvir, a desorganização, a necessidade de fazer as coisas do seu jeito e no seu ritmo, a necessidade de estímulo constantes, a instabilidade de humor, o isolamento, a instabilidade sexual magoam muito o cônjuge, que tende a depreciar o parceiro com TDAH, que por sua vez, tende a se retrair, isolando-se ou buscando outras fontes de estimulação. Como essas atitudes só alimentam mais ainda o descontentamento do parceiro, forma-se um círculo vicioso, onde a distância entre o casal cresce rapidamente. O diagnóstico então, torna-se fundamental para que os dois conheçam o transtorno e busquem a ajuda profissional necessária.

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